Tecnobrega: A música paralela (HERMANO VIANNA)



Tecnobrega consolida uma nova cadeia produtiva, amparada em bailes de periferia, produção de CDs piratas e divulgação feita por camelôs.

Por Hermano Vianna
Antropólogo, autor de “O Mundo Funk Carioca” e “O Mistério do Samba” (ed. Jorge Zahar).
Folha de S. Paulo de 13/10/2003.

Há muito tempo, o estilo de consumo musical das periferias brasileiras vem se comportando de maneira totalmente diferente do padrão que as gravadoras aprenderam a controlar e do qual sabem tirar seus lucros. Num panorama como esse, é óbvio que um camelô de CDs piratas tem muito mais chances -não só pelo preço- de seduzir o público do que uma loja de discos oficiais, onde os produtos são vendidos quase sempre com a aura de obras de arte (mesmo há tanto tempo na época de sua reprodutibilidade técnica!) adequadas a um tipo de consumo sempre refinável e intensamente retroalimentável. Se o garoto quer comprar uma música (”aquela que fala assim: “Não sou audiência pra televisão”… Não sei quem canta…”) para escutar umas três vezes -se muito- para que precisa de capa luxuosa, som perfeito ou letra completa (com relação completa dos músicos que tocaram em cada faixa) no encarte?

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Os piratas são os inimigos “número 1″ da indústria fonográfica. Mas nem toda a música do mundo está sendo lançada pela indústria fonográfica. Portanto, imaginava eu, deveria existir em algum lugar do mundo alguma música que seria amiga da pirataria. Só não tinha encontrado ainda um exemplo concreto dessa relação “amigável”.

Até que fui para Belém, no Pará, e me apaixonei pelo tecnobrega. Procurei os discos nas lojas de disco, pois sou do tempo antigo, em que todo mundo comprava discos em lojas de disco. Nada. Os músicos mesmo me indicaram os camelódromos como os únicos locais onde poderia encontrar os seus sucessos. Não tive dúvidas e, confesso criminosamente, comprei os meus primeiros discos piratas feliz da vida. O tecnobrega é a nova evolução de um dos estilos mais populares que a música popular brasileira já produziu. Sua origem mais remota, se não quisermos ir mais longe entre antepassados seculares da tradição romântica nacional, é a jovem-guarda dos anos 60, rock básico e escandalosamente ingênuo, tocado com uma guitarra “chacumdum”, um baixo e bateria. Quando Roberto Carlos quis virar cantor adulto, acompanhado por orquestras, a jovem-guarda migrou para o interior, mas manteve público fiel entre as camadas mais pobres de nossa população, passando a ser chamada pejorativamente de brega.

O brega floresceu primeiro no Goiás de Amado Batista, depois foi passear no Pernambuco de Reginaldo Rossi e acabou montando seu mais recente quartel-general no Pará. Na Belém pós-lambada, a cada ano são lançados mais de 2.000 discos diferentes de brega, em muitas gravadoras independentes.

Essa música toca nas rádios locais e nas festas de aparelhagem, que são os grandes bailes da periferia paraense, com equipamento gigantesco formado por centenas de amplificadores, televisores, teclados, “samplers”, tudo empilhado em formato de totem tribal eletrônico. Os DJs das aparelhagens -equipes de som que levam nomes como Príncipe Negro ou Tupinambá Treme-Terra (e a terra treme mesmo com o som ensurdecedor)- tocam de tudo, de tecno a forró. Mas ultimamente o brega tem dominado os horários mais animados da festa.

Em cada vez que passei por uma festa de aparelhagem fui surpreendido por uma troca de “paradigma” tecnológico. Vi, há não menos que 15 anos, os DJs tocando vinil, depois mudaram para CD, logo em seguida para MD e hoje só usam MP3, fazendo mixagens com o auxílio de teclados, mouses e monitores de tela plana. Tinha que aparecer uma música que combinasse com tal ostentação maquínica.

Os primeiros sinais do tecnobrega foram ouvidos no verão (que no Pará se vive no meio do ano) de 2002, mas tomou realmente conta das festas de aparelhagem em 2003. É o velho brega, com batida mais acelerada, feito só com sons de computadores. Parece um Kraftwerk de palafita, produzido sob calor equatorial por quem escutou muito carimbó, cúmbia, zouk e Renato e Seus Blue Caps -e não domina ainda totalmente os recursos do “cut-and-paste” que hoje estão na base dos softwares de produção musical que podem ser baixados de graça em sites piratas da internet.

Porém é essa atitude sem-cerimônia diante das máquinas que torna a música tão interessante, mais do que muito “projeto” eletrônico-fashionista “sério” que existe por aí. Não tenho dúvida de que o CD de estréia da banda Tecno Show, a primeira tentativa do tecnobrega de lançar um disco “de verdade”, “como antigamente” (e não uma compilação feita pelos próprios camelôs), é uma das coisas mais divertidas que apareceram na música brasileira recente.

Mesmo com CD lançado, a mídia mais importante para o Tecno Show -e outras bandas como a Vôo Livre ou a Mega Pai D’Égua- continua a ser o MP3 que vai para os DJs das aparelhagens ou dos programas de rádio e para as fábricas de quintal de CDs contratadas pelos camelôs.

A música circula mais como bytes do que como objetos reais que podem ser comprados e manipulados no mundo “não-virtual”. Os músicos não têm mais gravadoras nem o custo de prensar os discos, imprimir as capas ou distribuir os produtos -esse custo todo fica por conta dos camelôs e seus sistemas não-oficiais de indústria e comércio. O tecnobrega assumiu a pirataria como forma de divulgação.

De que então os músicos vivem, se não ganham dinheiro com vendas de discos nem as sociedades de arrecadação de direitos autorais têm o mínimo controle sobre o que toca nos programas de rádio ou nas festas de aparelhagem? Vivem das apresentações ao vivo, é claro -e nisso parecem ser pioneiros e vanguarda da música pop em tempos pós-Napster. As bandas do tecnobrega precisam da divulgação nas rádios, nas aparelhagens e no camelô para fazerem sucesso e serem contratadas para shows. Por isso seus grandes sucessos são metamídia: as músicas elogiam DJs, programas de rádio (como o “Mexe Pará”) e de TV, aparelhagens, fã-clubes de aparelhagens (ainda não escutei músicas celebrando camelódromos e piratas…). E assim todo mundo encontra seu devido lugar numa nova cadeia produtiva, totalmente descolada da economia oficial.

Quando contei tudo isso para o DJ Marlboro, principal produtor do funk carioca, ele não ficou nem um pouco espantado e apenas comentou: quando os camelôs e os piratas se aliarem aos músicos com contratos de exclusividade uma nova indústria fonográfica estará nascendo. Retruquei: mas aí aparecerão os novos piratas. E assim por diante. Não há como conter ou controlar as novidades e as dificuldades que a digitalização da cultura trazem para os antigos modos analógicos de comércio de cultura. Ou da economia em geral.

Uma festa de aparelhagem de Belém do Pará mostra a vitalidade de uma economia paralela brasileira e mundial, que não aparece mais nas estatísticas do Ministério da Fazenda ou do Trabalho nem pode ser domesticada nos acordos cada vez mais precários da Organização Mundial do Comércio. Até as roupas que os dançarinos usam são compradas em camelôs que se abastecem em feiras nordestinas, em circuitos totalmente “off”-ICMS, “off”-notas fiscais e “off”-carteira assinada.

Podemos fechar os olhos fingindo que esse mundo não existe, acreditando piamente nas estatísticas de desemprego e fatores sociais semelhantes que são publicadas nos jornais. Podemos achar que polícia e educação vão trazer essas outras economias para as leis oficiais e os impostos. Mas talvez seja melhor encarar essas novidades de frente, sem ilusões (ou repressões fadadas à derrota -como a que a indústria fonográfica ridiculamente decretou contra a troca de músicas via internet), aprendendo com elas não a se deixar dominar pela barbárie, mas sim a inventar as novas formas caóticas -no bom sentido!- de civilização do futuro.

Afinal, o que a velha economia, com seus séculos de exploração, trouxe de realmente bom e acessível (por outra via que não a pirataria) para quem frequenta e ama o tecnobrega das festas de aparelhagem?