Brega chega à Academia (ANTONIO MAURICIO DIAS DA COSTA)



Antropólogo revela como a classe média aderiu ao fenômeno das aparelhagens
Jornal O Liberal - Caderno Magazine - 25/out/2007

Tubaretes

Coreografias ensaiadas, uniformes personalizados e a mesma trilha musical: o tecnobrega. Esse é o mundo no qual a jovem Iris Passos, 24 anos, e suas amigas da Equipe Tubarão estão inseridas. Fãs declaradas das festas de aparelhagens de Belém, elas garantem que o circuito tecnobrega é, hoje em dia, um dos epicentros da cultura paraense. Redutos de todos os públicos, esses espetáculos romperam barreiras sociais e geográficas e estão bem no topo das opções de entretenimento para quem gosta de dançar e se divertir sem grandes preocupações. Prova disso é o fato de duas músicas do gênero terem emplacado em um festival de música popular brasileira promovido nada mais, nada menos, que pela Assembléia Paraense, o clube que abriga a fina-flor da burquesia paraoara. Os tecnobregas classificados são ‘Lá vem Madalena’, de Gabi Amarantos; e o tecno-raga ‘Meu Companheiro’, de Marcos Melo de Oliveira.

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Antes relegadas aos guetos dos subúrbios, as festas de aparelhagem têm mudado seus aspectos mais tradicionais e, ao mesmo tempo, estão mais próximas do centro. E o meio acadêmico passa a olhar esses shows com interesse científico, como fenômeno da cultura de massa produzida na periferia. Depois de dois anos de pesquisa, o antropólogo Antônio Maurício Dias da Costa traçou um perfil do fenômeno e analisa a fundo o significado do que ele chama de ‘festas populares heterogêneas’. O estudo resultou no livro ‘Festa na Cidade: o circuito bregueiro de Belém do Pará’, que ele lança hoje, no Instituto de Ciências da Arte da UFPA.

‘Essas festas tendem a se tornar uma marca regional’, diz Antônio, que a partir do estudo constatou que os espetáculos vão além do lazer das grandes massas. ‘O circuito é muito dinâmico e movimenta o mercado como um todo. Em geral, as aparelhagens são empresas familiares, mas incluem caminhoneiros para transportar, marceneiros para fazer as caixas de som, técnicos em eletricidade, vendedores e muitos outros’, explica. Segundo Antônio, o cenário bregueiro está no contexto da indústria cultural, com gravadoras e lojas especializadas.

Para as meninas da Equipe Tubarão, a idéia é só reunir os amigos e aproveitar o espaço dado aos fã-clubes dentro das festas de aparelhagem. ‘Nós acompanhamos todas as aparelhagens’, diz Iris. ‘Tupinambá, Príncipe Negro, Super Pop, cada uma tem seu diferencial dentro da mesma batida, que é o tecnobrega’. Os fã-clubes têm até músicas próprias nas festas. Depois que sabem a data e o local em que a aparelhagem vai se apresentar, Iris e suas amigas planejam tudo. ‘Nos reunimos em algum lugar e, então, saimos todos juntos e uniformizados’, conta.

PRECONCEITO

Iris diz que costuma ir às festas tranqüila, mesmo sabendo que eles nem sempre são seguros. ‘Nós sabemos que alguns locais onde elas acontecem são inapropriados, mas a segurança é muito boa. Antes, você ia e ficava com receio, mas agora todos se divertem mais’, diz. Antônio Maurício observa que os problemas de segurança pública não se restringem às festas de aparelhagem. ‘Qualquer espaço público com muitas pessoas é um problema em potencial. Embora seja contra a lei, às vezes policiais são contratados para algumas festas’, explica.

Quando fez a pesquisa de campo, em 2003, Antônio presenciou cenas no mínimo inusitadas e que revelam a ordem paralela que perpassa a ordem legal. ‘Freqüentei algumas festas em que eram colocados cartazes na porta dizendo: ‘Colabore com a segurança. Se você veio armado, deixe a arma aqui e pegue-a na saída’’, diz ele, ao notar que a questão da segurança reforça, na verdade, os estereótipos criados pelo choque cultural e de classes. ‘É normal que haja preconceito, já que são festas que envolvem manifestações populares’.

Os freqüentadores das festas também deram passos para a ascensão social. A maior parte dos membros da Equipe Tubarão, por exemplo, tem curso superior. ‘As aparelhagens eram populares, mas hoje tem muita gente de classe média alta lá, curtindo. O público ficou mais heterogêneo e, no final das contas, todos querem se divertir’, diz Iris. A pesquisa do antropólogo confirma a fala de Iris. Para ele, dizer que são festas do povão é uma forma simplificada de mostrar que pessoas de todos os cantos da cidade as freqüentam.

A pernambucana Andréia Santos, 30 anos, amiga de Iris e uma das ‘tubaretes’, ressalta o fator econômico como incentivo à freqüência. ‘Nas aparelhagens, não gastamos nem R$ 30 por noite. Os ingressos custam R$ 10 e boa parte da equipe entra com cortesia. Se fôssemos para boates, só a entrada custaria mais de R$ 40′, diz. Para Andréia, há uma impressão errada sobre as festas de aparelhagens. ‘Eu mesma tinha, mas comecei a ir e quebrei esses estigmas e preconceitos’, admite.

Dissidência

Antônio Maurício diz que as festas de tecnobrega são dissidências do ‘circuito bregueiro’ paraense. Os eventos são divididos entre os que ocorrem nos balneários, as aparelhagens urbanas e os bailes da saudade. ‘Nos balneários ao redor de Belém, geralmente famílias inteiras freqüentam. As festas de tecnobrega são voltadas para os jovens. Já os bailes reúnem um público de faixa-etária mais avançada’, explica o pesquisador.

O movimento bregueiro de Belém, segundo Antônio, nasceu na década de 70, a partir do trabalho de gravadoras locais, sobretudo a Gravasom, na década de 80. Depois de 1980, o gênero se difundiu com mais intensidade e, em 1990, começou a conquistar a classe média e públicos distintos. ‘A prova disso é que, hoje, as dissidências são até mais conhecidas do que o antigo movimento. As primeiras aparelhagens tocavam em associações e sindicatos. Hoje, elas estão em casas de espetáculos e até clubes em sociais’, diz o antropólogo.

Ao longo dessa evolução bregueira, uma característica permaneceu: a dança. ‘As coreografias são a grande tônica dessas festas. Alguns entrevistados disseram que o brega é um bolero mais agitado. Ou seja, há vários significados. Mas, de uma forma geral, a dança liga a música aos movimentos’, explica Antônio. As meninas da Equipe Tubarão ensaiam, têm suas próprias coreografias e chamam a atenção durante as festas. ‘Não são ensaios fixos, mas estamos sempre preparadas para dançar todas as músicas, desde o tecnobrega até o funk, o forró e o pagode’, diz Andréia.

Uma constatação, no entanto, ofusca o sucesso dessas festas. Segundo o antropólogo, dados da Delegacia de Polícia Administrativa revelam que pelo menos metade das aparelhagens não estão registradas. A ilegalidade não impede esses eventos, mas a quantidade de dinheiro envolvido deveria preocupar. Antônio diz que, em 2003, o valor dos contratos para essas festas chegava a R$ 6 mil, mas o pesquisador garante que atualmente as somas dobram.

Serviço: Lançamento do livro ‘Festa na Cidade: o circuito bregueiro de Belém do Pará’, lançado em 25/out/2007, às 19h30, no Instituto de Ciências da Arte da UFPA. O livro será vendido por R$ 20.

Dinho: ‘Toda manifestação popular é cultura!’

DJ Dinho é testemunha das mudanças no cenário bregueiro. No circuito há 25 anos e, hoje, à frente do Tupinambá, o mixer, produtor e organizador já tocou até na Assembléia Paraense, Pará Clube e outros lugares tradicionais da capital. ‘A classe média se rendeu, aderiu e essa é a grande diferença’, diz. ‘Não é que tenhamos perdido o antigo público, acontece que a classe mais baixa tem freqüentado muito os bailes da saudade. Isso aconteceu justamente por causa da música eletrônica’.

Para Dinho, a questão econômica também influenciou na mudança de público. ‘Tem o detalhe da tecnologia da aparelhagem. Trabalhamos com painéis de alta definição, o que deixa o valor muito alto, fora da realidade’, diz. As entradas para um baile da saudade custam em média três ou quatro reais. Enquanto no Tupinambá, cobra-se até R$ 15 reais. Segundo o DJ, só no Tupinambá trabalham 32 pessoas diretamente. Por alto, Dinho arrisca um total de 150 pessoas empregadas por festa.

A segurança é outra questão confirmada pelo DJ. ‘É muito raro ver uma confusão dentro da festa, até porque exigimos muito do promotor do evento’, conta. Segundo Dinho, o público tem ido somente para se divertir. Se houve brigas em excesso, o problema já acabou. Em meio aos principais atores desse movimento, Dinho encara suas festas como patrimônios culturais. ‘Tem gente que diz que aparelhagem não é cultura, mas toda manifestação popular é cultura’, sacramenta.

DIFERENÇAS

As festas de aparelhagem, no fundo, servem como meio para reduzir as diferenças entre camadas sociais e quebrar velhos paradigmas, inclusive o que divide as manifestações culturais populares e eruditas. ‘É tudo uma questão de significação. A história é a mesma do carimbó de raiz que, no século XIX, foi até proibido, mas hoje é considerado ‘cult’ e toca nas principais casas de show de Belém’, explica Antônio Maurício.