Tonny Brasil: Ele é o pai do tecnobrega (EDSON COELHO DE OLIVEIRA)



Jornal O Liberal - 30/set/2007
Oito em cada dez músicos de calipso ou brega gravam Tonny Brasil

Edson Coelho de Oliveira

Tonny Brasil Quando a chamada primeira fase do brega paraense explodiu, no início dos anos 80, o adolescente Antônio Luís não tinha maiores interesses por músicas, a não ser ouvir os cantores preferidos e freqüentar festas populares à base de aparelhagens. Quando cantores como Luiz Guilherme, Mauro Cotta e Ted Max chegaram ao auge (em 1985), Antônio Luís, com 18 anos, começou a tocar numa banda de rock, Éter na Mente. Quando o primeiro boom do brega começou a decair, no início dos 90, Antônio virou Tonny Brasil e começou uma ascensão sensacional reinventando o ritmo: hoje, 80% dos cantores de brega (ou de calipso) ou gravam músicas de Tonny ou são produzidos por ele (inclusive a Banda Calypso), numa supremacia inédita de um único músico na história do ritmo que os paraenses mais gostam de dançar.

‘Nasci em 1967, em Belém, e desde então moro na Cremação’, diz Tonny. ‘Eu estudava no colégio Gentil Bittencourt e tinha 18 anos quando, por causa de uma disciplina, escolhi entrar numa banda, mesmo sem saber tocar.’ Na banda Éter na Mente, coube-lhe o contrabaixo, por puro acaso. ‘Aprendi a tocar durante os ensaios, e à medida que dominava as primeiras notas, já experimentava possibilidades, tentava fazer diferente. Pode-se dizer que aprendi a compor ao mesmo tempo em que aprendi a tocar.’

Dois anos depois, um fato mudaria a vida de Antônio Luís: ‘A morte de meu pai, o carpinteiro Sebastião Conceição, mexeu muito com a vida da família, principalmente de minha mãe, a dona-de-casa Etelvina Conceição. De minha parte, precisei trabalhar, e até então só sabia lidar com música.’ A virada veio em show da banda Éter na Mente na concha acústica do Centro Arquitetônico de Nazaré. ‘Ali o Juraci, da banda de Baile JS, gostou de meu trabalho e depois me procurou, descobrindo onde eu morava.’

Na JS, Antônio Luís virou Tonny Brasil: ‘Eu sempre cantava uma música do Chiclete com Banana que falava de Brasil e brasileiro. Como eu era abusado, cantava lá em cima, com os agudos estourando, e a rapaziada da banda sempre pedia: canta aquela do Brasil. Logo virou apelido.’

TECLADO

Com a banda JS, Tonny conheceu o melhor e o pior da noite (’Sempre convivi com os malucos, mas ficava na minha, e também toquei em muito bordel’), ganhou experiência, mas a situação ficou de novo delicada quando a companheira de Tonny à época engravidou. ‘Foi aí que descobri o teclado e o que chamo de eletro-ritmo: o som de barzinho, voz e teclado, do qual fui o primeiro praticante em Belém e em que me especializei.’ Tonny lembra que por esta época a geração de Luiz Guilherme e Mauro Cotta sofria um duro golpe: o fechamento da Gravasom, gravadora que abrigava os principais artistas da época, obrigando todos a mudarem radicalmente de vida ou tentar a carreira fora do Pará. ‘Antes deles, o que havia era o que chamo de brega de garimpo, abolerado, com muita música sobre corno, beirando a baixaria; com eles, predominou as belas melodias e também as letras muito boas. Posso até estar enganado, mas até então o brega não era calipso, ainda não tinha incorporado a batida do calipso, o que prevalecia era o chacundum, marcado na guitarra e na bateria.’

Com Os Panteras, a grande descoberta

Após a JS, Tonny tocou em várias bandas, como Asa Delta e Laser, e, quando começou a tocar com Os Panteras, descobriu a paixão pelos estúdios. ‘Fiquei dois anos freqüentando o estúdio do Cláudio Lemos, dos Panteras, ali no Arsenal. Eu trabalhava de graça, só pra aprender: ligava os equipamentos, comprava merenda, carregava os cabos. Virei rato de estúdio, onde aprendi que o segredo de uma boa música é um bom chão, uma boa base, boas harmonias.’

Em seguida, Mauro Freitas levou Tonny para tomar conta do estúdio MProduções, ‘onde conheci o Chimbinha, que na época era apenas Cleidivam.’ Foi na MProduções que Tonny conheceu o baixista castanhalense Edir Alves, ‘que para mim é um cara essencial na história da brega: foi o Edir que colocou a batida do calipso no brega, marcada por três cordas de guitarra. O calipso já está lá no Elvis Presley, em várias músicas, mas ali a batida era feita pelo piano. Depois do Edir, veio o guitarrista Barata, irmão do Manoel Cordeiro, que gravou a nova fusão com todos os melhores cantores da época. Anos depois, o Chimbinha pegou a mesma batida, que o Edir fazia com três cordas, e subdividiu matematicamente, desenvolvendo novas possibilidades do ritmo e criando novas levadas.’

Certa vez, no início dos anos 90, a MProduções agendou a gravação do terceiro disco de Roberto Villar, o primeiro nome do brega a ultrapassar um milhão de cópias vendidas de um mesmo disco. ‘O produtor seria o DD, que não pôde fazer o trabalho, e aí quem o Mauro escolheu para produzir? Este que vos fala’, lembra Tony. Com Edir Alves e outros músicos da pesada, a produção não apenas fundiu calipso com brega, como também com rock, a partir de influências internacionais (o guitarrista Mark Knofler, do Dires Straits) e nacionais (os grupos Metrô, Sempre Livre, Gang 90 e o Biquíni Cavadão da música ‘Tédio’, ‘da qual esgotamos todas as possibilidades: daquela guitarra não é possível tirar mais nada que não tenhamos tirado’). Foi com ‘Majestade Sabiá’, o disco de Roberto Villar, que se inventou o chamado brega melody.

TECNOBREGA

Por esta época, o jovem Tonny, de apenas 22 anos, resolveu se arriscar nas gravações, e dividiu um disco com a cantora Anna Di Oliveira. Duas músicas estouraram, entre elas ‘Lana’, de Tonny, com letra em inglês: ‘Foi a primeira música feita 100% com instrumentos eletrônicos, principalmente teclado. É a primeira representante daquilo que, anos depois, o Rosenildo Franco chamou de tecnobrega’. (Rosenildo Franco é hoje diretor de arte da Galvão Propaganda, que entre os anos 70 e 80 manteve, em A Província do Pará, a coluna ‘Avant Gardé’ e depois transferiu-se para o mercado publicitário da Bahia, onde acompanhou de perto a ascensão da chamada Axé-Music. Rosenildo produziu a capa de um dos primeiros CDs solos de Tonny Brasil.)

Para se ter uma idéia da importância que Tonny adquiriu no atual cenário do brega paraense, basta dizer que ele já fez cerca de 2000 músicas, 700 delas gravadas por artistas como Banda Calypso, Wanderley Andrade e Gaby Amarantos. ‘Não componho com violão, e sim com teclado. Na verdade, às vezes estou na rua, e a música já vem pronta, com melodia, letra e arranjo, e aí tenho que correr para casa e finalizar no teclado.’

Tonny vive - bem - de direitos autorais. Tem composições em todos os discos da banda de Chimbinha e Joelma, inclusive seis no ‘Calypso Volume 2′, que é o primeiro ao vivo e até hoje o mais vendido. Entre os principais sucessos pela voz de Joelma, destaca ‘Maridos e esposas’, ‘Cúmbia do amor’, ‘Dudu’, ‘Dois corações’ e ‘Choro por você’. ‘O que mais admiro no Chimbinha, além do músico, é a visão de mercado: na hora em que ouve, ele já sabe se a música ‘pegará’ ou não junto ao público.’

Em viagem à capital da Guiana Francesa, Cayena, no início dos anos 90, Tonny Brasil conheceu o Zouk e com este ritmo promoveu novas fusões em Belém. Foi também em Cayena, em outra viagem, que descobriu as possibilidades do computador aplicado à música. ‘Logo comprei um computador, sem nem saber como usar, e pior: sem saber que em Belém não havia os programas necessários. Descobri sozinho várias possibilidades, combinando equipamentos antigos e novos, a partir de minha experiência com estúdio. Depois os softwares chegaram por aqui, e ficou ainda mais fácil experimentar e inovar.’

TECNOLOGIA

A tecnologia, aliás, foi o principal suporte para a sobrevivência do brega após o fechamento da Gravasom: ‘Com a popularização da tecnologia, era possível gravar em qualquer lugar. Um bom teclado, bem programado, faz uma festa da pesada, e tenho a maior paciência para programar. Isto acabou desempregando muitos músicos, mas, infelizmente, foi um processo inevitável’.

Outro suporte do brega foram as aparelhagens, ‘que alguns anos atrás não tinham grandes equipamentos, e precisávamos adaptar as sonori’em reproduzido. Isso também ajudou a sintetizar o tipo de som que temos hoje, com batidas eletrônicas, ainda que os equipamentos agora sejam de última geração’.

Tonny Brasil tem seis filhos, o mais novo de apenas dois meses de gerado, com a atual companheira, a cantora Marisa Lins. O mais velho, Jimmy Luís, tem 16 anos e é guitarrista e compositor numa banda de rock. ‘Minha segunda, a Adrieli Luís, de 15 anos, preferiu o clássico: estuda percussão na Fundação Carlos Gomes e toca na Amazônia Jazz Band: xilofone, vibrafone e muitos outros instrumentos de nomes estranhos que eu nem sabia que existiam. Sou muito orgulhoso de ela ter um grande professor, o Ricardo Aquino.’

O midas das fusões

Tonny foi o produtor de ‘Majestade Sabiá’, terceiro disco de Roberto Villar, onde pela primeira vez se fez o chamado brega melody

Tonny gravou o primeiro disco aos 21 anos, junto com Anna Di Oliveira. A música que estourou foi ‘Lana’, com letra em inglês e sonoridade completamente eletrônica: foi o primeiro tecnobrega

Tonny Brasil já compôs cerca de 2000 músicas, 700 delas gravadas por gente como Banda Calypso, Wanderley Andrade e Gaby Amarantos

Tonny ouviu Zouk pela primeira vez em Cayena (capital da Guiana francesa) e logo introduziu o ritmo em Belém, fundindo com o brega-calipso e com o brega melody

O novo disco de Tonny, ‘Ragga Melody’, traz fusões entre o brega melody e a raiz ragga do reggae

80% dos cantores e grupos de brega em Belém gravam Tonny Brasil ou são produzidos por ele