O Futuro é Tecnobrega (ANDRÉ MACHADO)



Fenômeno de produção digital e distribuição diferente de música põe o Brasil entre os pioneiros do modelo ‘open business’

André Machado
Jornal O Globo - Caderno Info Etc - 09/abril/2007

Tupinambá

O Artur Xexéo comentou semana passada: os números das vendas de CDs no Brasil, divulgados recentemente, são a maior prova de que as gravadoras estão morrendo. Devagar, o acesso avassalador à informação proporcionado pela internet ocasiona novos modelos de negócio, que permitem chegar ao lucro de modo mais colaborativo e sem o afã do “all rights reserved”. E esses modelos já ganharam um nome: open business, ou negócios abertos. Exemplos de open business são a florescente indústria do cinema nigeriano, sites de escritores como o Tortilleria, em que cada escritor pode imprimir “on demand” obras suas e de outros e vendê-las, páginas musicais baseadas em doações, como o Jamendo, e assim por diante.

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Maior projeto local no clima open business está no Pará

Mas o maior exemplo de open business está aqui mesmo no Brasil — e lá no Pará. É a animadíssima indústria do tecnobrega, que movimenta milhões de reais todos os meses com gravações, shows e festas de aparelhagem (espécie de baile funk local) cheias de efeitos especiais e nas quais o computador não pode faltar. A distribuição do conteúdo nesse mercado não é hierarquizada e ocorre ao mesmo tempo em todas as direções — exatamente como se fosse uma internet ao vivo e a cores. O Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da FGV, junto com o projeto Overmundo e a Fipe, fez uma pesquisa sobre este mercado e concluiu que, embora com aspectos informais (os camelôs são elementoschave na distribuição dos CDs dos artistas), o tecnobrega é uma nova maneira de abordar o processo da música.

A coisa toda começa na produção das músicas. Com a chegada do computador e da internet, foi possível produzir muito mais músicas em estúdio com softwares opensource de edição musical.

— Essa descoberta dos computadores e dos programas de edição freeware deu-se a partir de 2002 na periferia de Belém e modificou o brega, levando ao tecnobrega e ao cibertecnobrega — disse no seminário o antropólogo Hermano Vianna.

— Hoje, as equipes das festas de aparelhagem trocam de equipamento todo ano. Começaram com vinil, depois CDs e agora têm notebooks.

Os estúdios produzem centenas de CDs independentes que, através de distribuidores informais, são reproduzidos e repassados aos vendedores de rua de Belém. Assim, o CD vai se popularizando (junto com o artista ou banda), levando público para os shows e festas de aparelhagem.

Nas festas, mais CDs são gravados, em tempo real, com o artista ou DJs falando os nomes de pessoas presentes no público. Muitos compram esses CDs ao vivo personalizados.

A pesquisa entrevistou 79 bandas, 273 equipes de aparelhagem e 259 vendedores. Em um mês, a estimativa de ganho com a venda de CDs nos shows é de R$ 1,045 milhão.

Os DVDs rendem R$ 964.600.

UM MERCADO COMPLEXO QUE FATURA R$ 3 MILHÕES

Aparelhagem
E isso apenas para as festas de aparelhagem no Pará. Bandas e artistas ganham ainda mais: no total, R$ 3,3 milhões

O mercado de festas de aparelhagem fatura R$ 3 milhões por mês, enquanto as bandas e cantores levam R$ 3,3 milhões mensais. E o preço do CD é R$ 7,50. O do DVD? R$ 10.

Oitenta e oito por cento desses artistas nunca tiveram contrato com uma gravadoras, mas são muito populares; 51% deles estimulam a venda dos CDs pelos camelôs, e 59% acham positiva a distribuição informal.

Os vendedores de rua faturam, em média, R$ 1,74 milhão mensais com a venda dos discos.

As festas de aparelhagem do Pará são bem caprichadas.

Costumam possuir uma cabine de controle sofisticada para os DJs e técnicos de som e pelo menos duas a três torres de altofalantes.

Laptops não podem faltar, bem como aparelhos de efeitos sonoros e iluminação. As festas têm “roadies”, funcionários que montam e cuidam da operação de todo o equipamento necessário.

O mercado do tecnobrega na região emprega, segundo a estimativa feita pela pesquisa, 4.053 pessoas (e o número não inclui algumas atividades como serviços de bar, segurança das festas e bilheteria).

Cachê de bandas pode chegar a R$ 2.200 Nem tudo é informal nesse mercado. As casas de festas pagam alvarás e impostos às prefeituras para realizar seus eventos. Na Grande Belém, só de pessoal envolvido com as bandas e artistas, contam-se 1.639 indivíduos, entre músicos, cantores, bailarinos, funcionários de apoio etc. Existem pelo menos 860 vendedores de rua trabalhando com os CDs e DVDs gravados nos estúdios caseiros. E as bandas são valorizadas financeiramente.

Por exemplo, o cachê recebido por uma banda, se ela toca sozinha numa apresentação, pode chegar a R$ 2.200. Junto com outras bandas ou com festas de aparelhagem, ela fatura menos — R$ 1.400 —, mas dá para o gasto.

O que falta para esse florescente mercado se consolidar? A formalização.

— Mas sem satanizar os vendedores de rua — diz Ronaldo Lemos, coordenador do CTS. — O que poderia tornar o mercado mais formal seria o fim da troca física de conteúdo, através de tocadores de MP3, celulares, etc. Mas isso leva tempo.

Segundo Ronaldo, a inovação é uma constante em todos os modelos de open business.

— Como estão localizados na periferia, não têm alternativa, precisam inovar — diz.

A ideologia também pode estar presente em alguns tipos de negócio aberto. Segundo Lemos, a cena anarco-punk na Colômbia é meio que pioneira neste sentido.

— Os músicos de anarcopunk colombianos não reconhecem nenhum direito de propriedade intelectual, e vêem a necessidade de intercâmbio constante. Como a cena já existe há algum tempo, ideologicamente, eles já estavam à frente de seu tempo — conta. — Mas esse componente não aparece em todos os lugares. Na própria Colômbia, o mercado de músicas ditas “de fusão” (misturando rock, reggae e assim por diante) é menos ideológico e mais experimental.

Segundo Christian Ahlert, cabeça dos Creative Commons na Inglaterra, o open business rompe com a maneira tradicional de ganhar dinheiro. Para ele, é viável pensar em novas formas de organizar negócios.

No seminário, citou exemplos como o software aberto, desenvolvido de maneira colaborativa por programadores em todo o mundo, mas nem por isso distante de estratégias comerciais.

O próprio Creative Commons, aliás, é outra linha filosófica que caminha para o open business, permitindo o compartilhamento de conteúdo dentro da máquina do copyright.